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SANTO EXPEDITO

   

NOTAS BIOGRÁFICAS

De Santo Expedito, possuímos apenas citações históricas esparsas, mas elas, no entanto, são suficientes para lançar sobre nosso santo um raio de breve e edificante luz. Por mais frágil que seja, essa luz é capaz de suscitar nossa veneração, pois ilumina exatamente a única página da vida do Santo, e a mais gloriosa também: a página que nos revela seu martírio na Armênia, em 19 de abril de 303, episódio registrado nos mais antigos martirológios (lista ou catálogo dos mártires e santos) latinos.

A encíclica Humani generis, de Pio XII, inclui Santo Expedito no martirológico romano e seu culto é reconhecido formalmente pela Igreja, comemorado na missa dos mártires não-pontífices ( mártires que não foram bispos).

Quanto a nacionalidade de Santo Expedido, não se sabe ao certo se ele é romano ou armênio.

Viveu no fim do século III. Nessa época, o imperador Diocleciano, para defender o vasto território imperial contra as invasões bárbaras, cada vez mais ameaçadoras, decidiu dividir o poder com Maximiniano (286), que recebeu o cargo de governador do Ocidente. Diocleciano reservou-se o domínio do Oriente, fazendo Nicomédia sua capital.

Depois, em 292, os dois césares juntaram-se a Constâncio Cloro e a Galero.

Constâncio Cloro reinou sobre a Gália e sobre a Armórica. Era o melhor entre os quatro governantes: ele estimava os cristãos e os deixava em paz.

A Grécia, a Trácia e os países da Danúbia, ficaram confinados ao cruel e despótico Galero.

Galero e Maximiniano eram soldados rudes e sanguinários e exterminavam todos os cristãos que pudessem. Galero era estimulado por uma mãe pagã fanática e invejosa dos nobres cristãos da corte de Diocleciano.

Diocleciano, tolerante por natureza, apesar de suas primeiras recusas de ordenar massacre aos cristãos, no final de seu reinado acabou cedendo às criminosas sugestões dos assassinos e lançou-se pessoalmente nas perseguições aos cristãos.

Sobre o falacioso pretexto de assegurar a disciplina do exército, o primeiro ato de Galero no poder foi restabelecer os sacrifícios aos ídolos. Com licença de Diocleciano, Galero aproveitou para cassar as patentes e condenar à morte os oficiais rebeldes. Esse primeiro sangue inocente inebriou a brutalidade do governante, que passou a desejar uma mais vasta carnificina.

Galero conseguiu uma audiência com Diocleciano, a fim de arrancar um edito (Lei promulgada pela autoridade soberana) formal de perseguição, mas o imperador se mostrou reticente. Contudo, por força de suas muitas solicitações e intrigas, em 303, Galero conseguiu do imperador um primeiro edito. O dia 23 de fevereiro era um dia consagrdo à celebração da festa das Terminalia, ou "Limites dos campos", que consistia em holocaustos a Jupiter Terminus (deus da mitologia romana, protetor dos limites). Galero desejou fazer dessa festa o fim das atividades dos cristãos.

O edito que ele arrancara ao imperador - e que ainda não permitia o derramamento de sangue - autorizava a destruição de todas as igrejas e anulava todos os direitos civis, políticos e até mesmo domésticos dos cristãos.

   A grande igreja da Nicomédia foi destruída. A ação diabólica mal começara, quando um segundo edito, de 24 de fevereiro, ordenou a prisão de todo o clero. Tão iníquas medidas foram aplicadas com rigor máximo. Os templos foram pilhados e demolidos, os livros sagrados profanados e destruídos, as assembléias de fiéis proibidas. Passou-se a exigir abjuração (renúncia) do cristianismo, sob pena, para os nobres, de perda de seus títulos e dignidades; para o povo, de ser reduzido à escravidão; para os escravos, de não poder receber alforria.

Da noite para o dia, o cristão passou a ser o pária da sociedade, a exemplo de Jesus trezentos anos antes. Apesar de tudo, o sucesso inicial das violências contra os cristãos não foi suficiente para satisfazer o miserável Galero. Encorajado pela mãe, a fúria em pessoa, Galero provou a Diocleciano, por meio de relatórios mentirosos e falsas conjurações, que o cristianismo corrompia os quadros do Império. Usou das mesmas calúnias, das mesmas ameaças dissimuladas anteriormente empregadas pelos fariseus para conseguir de Pilatos, contra sua própria vontade, a decisão de entregar Cristo à cricificação.

Para agravar a situação, occorreu um incêndio no palácio imperial. Como no tempo de Nero, Galero apressou-se a culpar os cristãos pelo fogo. Induzido pela emoção, Diocleciano deu finalmente carta branca a seu feroz comparsa. Nesse meio tempo, Prisca e Valéria, mulher e filha de Diocleciano, que se diziam cristãs, tinham abjurado ao verem as primeiras perseguições. Essa vitória encheu de maldosa laegria a pérfida mãe de Galero, mas não teve grande futuro. No próprio palácio imperial, Pedro, camareiro imperial, e vários outros servos importantes preferiram deixar-se imolar a negar a fé.

Em 304, um terceiro edito assegurava liberdade a todos os que abjurassem e condenava os rebeldes ao suplício. Por fim, em 305, os desejos de Galero se realizaram: ele podia devretar, sem restrição, que, sob risco de pena de morte, todo cristão, de qualquer idade ou sexo, era obrigado a fazer sacrifícios aos ídolos. Para alcançar esse fim, criaram-se as mais atrozes torturas. A época do imperador Diocleciano é conhecida como a era dos mártires.

Esta foi a época sangrenta e trágica em que Santo Expedito viveu, época em que ele morreu para a maior glória de Cristo Jesus, seu único Senhor e Deus.

Santo Expedito era comandnte-em-chefe da XII legião romana, denominada a Fulminante, aquartelada na cidade de Melitene, principal núcleo da província romana da Armênia. Para se fazer uma idéia da importância do posto que nosso Santo ocupava, é preciso dizer que uma legião se compunha de dez coortes, que, por sua vez, se subdividiam em centúrias. A primeira coorte compunha-se de 1.100 soldados de infantaria e de 132 cavaleiros com armaduras; as outras nove legiões eram compostas cada uma de 555 soldados de infantaria e 70 cavaleiros. O efetivo era de 6.821 homens, aos quais se devem somar os ajudantes das lançadeiras: balistas e jumentos, pontoneiros de campanha e grupos de trabalhadores de acampamento. Santo Expedito era o tribuno, ou melhor, o primicerius desse exército, primeira dignidade da legião, comparado atualmente a um general de divisão.

Essa XII legião, inteiramente constituída de cristãos armênios, outrora protegera Jerusalém contra os ataques dos bárbaros. Naquele tempo, tinha por missão defender a fronteira oriental, continuamente ameaçada de invasão asiática. Roma temia muito esta invasão. Santo Expedito estava investido de uma função estratégica de máxima importância.

O nome Fulminante, dado à legião comandada por Expedito, provinha de uma façanha militar milagrosa ocorrida sob o reinado de Marco Aurélio. Na dura campanha da Germânia, o exército romano estava abrigado num oppidum (fortaleza) fortificado na região dos Quades, no nordeste da Hungria, mas, surpreendido pelos bárbaros, deixou-se sitiar. Era pleno verão. A água logo acabaria. Morrendo de sede, os soldados romanos não tinham forças para combater e seu moral caía rapidamente. Apelando aos áugures (sacerdotes romanos que faziam presságios a partir do vôo e do canto das aves), que sempre acompanhavam as tropas em campanha, predizendo com base em práticas mágicas o êxito ou a derrota de uma operação, Marco Aurélio ordenou que se fizessem orações  públicas aos deuses.

Enquanto o resto do exército se dedicava a estéreis invocações, a Fulminante saiu a campo, ajoelhou-se na planície e, com fervor intensificado pela provação, fez elevar ao Deus todo-poderoso a única e verdadeira prece que sobe aos céus... Estavam ali, seis mil guerreiros, implorando de braços estendidos - era desse modo que se rezava na época. O espetáculo era, ao mesmo tempo, tão inesperado e tão majestoso que o inimigo estarrecido, não ousou atacar.

Quando acabaram a oração, os soldados ergueram-se num só impulso e investiram contra os bárbaros. Nesse momento, uma chuva torrencial começou a cair. Os soldados recolheram em seus capacetes e escudos aquela água providencial, saciando-se com longos goles, sem parar de combater. Sentiam renascer suas forças, mais vivas que nunca, aquelas mesmas forças que antes pareciam esgotadas. Mal iniciado o combate, antes mesmo que as outras legiões viessem em socorro, terrível tempestade desencadeu-se. Os raios literalmente despedaçaram as fileiras dos bárbaros. Grande quantidade de granizo caía como pedras de funda, cravando-se nos escudos, dilacerando os cavalos que tombavam de dor, derrubando os guerreiros apavorados... Sob esse desencadear de potências celestes, os cristãos foram milagrosamente preservados, o inimigo recuou e, arduamente perseguido pelos romanos, debandou em pânico.

Para celebrar esse milagre, a XII legião romana recebeu o nome de Fulminante. Tempos depois, Santo Expedito viria a ser o chefe dessa gloriosa falange e, por meio do martírio, Deus viria cobri-lo de graças e honras as mais preciosas.

Aos 13 das calendas de maio, ou seja, 19 de abril de 303 d.C., na cidade de Melitene, a atual Malátia, foi flagelado até sangrar e depois decapitado pela espada. O destino de seu corpo é ignorado e talvez tenha sido jogado nos esgotos da cidade, dado como pasto aos animais, ou misteriosamente enterrado por corajosos catecúmenos, a exemplo do que acontecia com tantos outros.

A importância de seu posto e o fato d ser cristão faziam dele um alvo especial do ódio de Galero. Santo Expedito sabia do rigor e da amplitude da perseguição. Ele e seus companheiros não alimentavam ilusão alguma quanto à sorte que lhes estava destinada para breve. Os recentes exemplos de seus companheiros, São Sebastião e São Maurício, devem tê-los encorajado, e Deus permitiu que, animados por uma fé robusta, recebessem a virtude da força, conferida diretamente pelo Espírito Santo. O amor de Deus foi maior que o amor pela vida, e sua esperança não se dobrou diante de nada. Soldados cheios de coragem na presença do inimigo, eles encararam a morte, aceitando-a corajosamente e com tranqüilidade, unicamente por amor a seu Deus. Tudo o que perderam na terra, o Senhor lhes deu de maneira infinitamente maravilhosa no céu, oferecendo-lhes a coroa da glória prometida àqueles que o amam.

A terra embebida do sangue dos heróis nacionais mortos nas batalhas não para de clamar por ódio e vingança. Mas quando fecundada pelo sangue dos mártires cristãos, implora misericórdia, assim como, do alto da cruz, o Cristo torturado, humilhado, perdoou seus algozes. Este é o milagre póstumo da fé cristã, dos antigos, razão pela qual devemos orar a todos os santos, a fim de que pacifiquem a justa e terrível cólera do Senhor, diante de tantos crimes abomináveis.

   O culto de Santo Expedido deve ter surgido no lugar de seu martírio. Tardiamente a devoção ao Santo parece ter transposto as fronteiras, e a Alemanha Meridional começou a difundi-la, sem dúvida em recordação dos combates que a gloriosa legião Fulminante enfrentou na região e onde suas façanhas se tornaram célebres. Depois, o nome de Santo Expedito passou a receber honras na Itália, especialmente na Sicília. Ali Santo Expedito foi eleito padroeiro da cidade de Aci-Reale. A Espanha foi a proxíma a oferecer-lhe seus altares e orações. Depois, atravessando os Pirineus, o culto a nosso Santo começou a se estabelecer na região francesa do Midi, onde a cidade de Pau foi a primeira a venerar nosso Santo, que ali passou a ser objeto de uma devoção especial. Glória ainda mais eminente é a presença da imagem de Santo Expedito à sombra da gruta de Massabielle, onde a Santíssima Virgem Maria dignou-se manifestar-se à humilde pastora, em Lourdes, ambiente emocionante e místico santificado pela permanente presença da Mãe de Deus. Depois a imagem foi transferida da cripta da basílica para a agradável capela do Asilo Notre-Dame. Em Paris, pode-se orar ao Santo na cripta de Santa Maria Madalena, na igreja de São Roque, na de São Pedro de Montrouge... Na França, a devoção se difundiu um pouco por toda a parte, e particularmente na Igreja de Saint-Nizier em Lyon, em Lille e em numerosas paróquias do Norte. Na Bélgica, seu culto é incentivado pelos padres agostinianos da Assunção na pitoresca capela de Santa Madalena, em Bruxelas, onde ele figura ao lado da imagem de Santo Agostinho e de Santa Rita de Cássia, a grande agostiniana.

No Brasil, Santo Expedito vem sendo cada dia mais invocado, especialmente no centro sul do país, com muitas capelas dedicadas a seu culto.

Símbolo de Santo Expedito

Geralmente se retrata Santo Expedito vestido como legionário romano. Na mão direita, ele empunha a palma do martírio e na esquerda mostra a cruz, sobre a qual se pode ler a palavra latina Hodie, que significa "hoje". Com o pé ele esmaga um corvo que crocita a palavra Cras ("amanhã"). Hodie, lema de Santo Expedito, significa que jamais devemos adiar para amanhã o tempo de render a homenagem de amor a Deus e o reconhecimento a Ele devido, para implorar de Sua divina misericórdia e de Sua infinita bondade as graças que nos são necessárias, pois o que é impossível para os homens é perfeitamente possível para Deus. Amanhã pode ser nunca! Não devemos deixar de realizar hoje a ação que nos é solicitada. amanhã poderemos mudar de opinião, esfriar, esquecer nossas promessas, ou sermos impedidos pela preguiça. Hodie é também um convite a não nos preocuparmos com o amanhã. "A cada dia basta a sua pena." A subsistência diária de todo pássaro é garantida pelo próprio Deus. Pensar sempre em Deus é a única maneira sábia de prever o amanhã, pois o amanhã é a esperança do céu.

Num  nível mais prático, Santo Expedito nos exorta a não demorar em nos confiar à sua intercessão. Ao mostrar sua cruz, ele nos assegura que intercederá por nós hoje, a fim de que, por sua mediação, o Divino Senhor e sua Santíssima Mãe nos atendam sem demora.

O corvo que ele esmaga com seu coturno vencedor é a obscura imagem do anjo das trevas que não deixa de tentar deter-nos em nossa expansão para Deus, crocitando ao ouvido de nossa alma: cras, cras... amanhã, amanhã... Com efeito, se nosso amanhã pertence a ele, nosso hoje pertence a Deus: e o hoje de Deus é eterno!

Quanto ao simbolismo do traje militar de Santo Expedito, meditemos no que São Paulo escreveu aos Efésios: "Sejais pois firmes, com os rins cingidos pela verdade, revestidos com a couraça da justiça, sandálias aos pés, prontos a anunciar o Evangelho da paz. E sobretudo, tomai o escudo da fé, pelo qual podereis extinguir todos os traços inflamados do Maligno. Tomai também o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a Palavra de Deus".

Santo Expedito nos compromete a cumprir, pelo amor do Senhor, todas as obras com coragem, fidelidade e disponibilidade. E não devemos apenas não deixar nada para amanhã, mas também devemos cumprir, sem o menor retardamento e antes de todas as outras coisas, tudo o que a Vontade Divina exige ou simplesmente propõe. Por meio dessa obediência cavaleiresca e generosa é que mereceremos a ser chamados "filhos do Senhor".

Por fim, Santo Expedito é habitualmente representado como um jovem, e essa juventude é a imagem de nossa alma, de nosso eu despojado do homem velho e revestido de Jesus Cristo. É o símbolo da pureza de coração que devemos procurar ter em todas as ocasiões, o símbolo também de nossa fé vigorosa, viva e sólida como uma rocha, a exemplo do centurião Cornélio, que conhecemos por meio dos Atos dos Apóstolos.

Santo Expedito nos mostra a atividade fiel e o desinteresse, a fé total numa caridade perfeita levada ao sacrifício da vida. Ele é o servo zeloso sempre pronto a voar para onde o dever ou o perigo o convocam, para que o Reino de Deus possa acontecer.

 

Extraído dos DEVOCIONÁRIOS LOYOLA

8ª edição: abril de 2001